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sexta-feira, 10 de julho de 2026

O dia em que vimos a neve cair - Valle Nevado

Esse provavelmente era o dia mais aguardado da viagem. Tínhamos vindo ao Chile no inverno com um desejo muito específico: queríamos que as crianças vissem neve — e, se tivéssemos sorte, que vissem a neve caindo.

Na noite anterior já havíamos alugado praticamente todas as roupas necessárias, então estávamos bem preparados. Só havia faltado uma coisa: as luvas do Felipe, que alugamos pela manhã junto com as correntes para o carro.

Não conseguimos sair tão cedo quanto pretendíamos, mas seguimos viagem tranquilos.

Começamos a subir a Cordilheira sob uma chuva fina. O trânsito estava fluindo bem e, naquele momento, tudo parecia indicar apenas mais um dia frio e chuvoso.

Até que, já bem próximos da vila de Farellones, percebemos que alguma coisa estava mudando.

A chuva começou a engrossar e, por alguns segundos, ficamos olhando sem acreditar muito no que estávamos vendo.

Até que alguém gritou:

— NEVE!!!

Era neve.

Farellones ainda estava praticamente sem qualquer neve acumulada. O que víamos de branco eram basicamente as pistas com neve fabricada. Por isso nem paramos e continuamos em direção ao Valle Nevado.

E foi justamente dali para frente que o cenário começou a se transformar.

Quanto mais subíamos, mais neve aparecia. Primeiro nas laterais da estrada, depois sobre o asfalto e nas montanhas ao redor. De repente, tudo começou a ficar branquinho, branquinho, exatamente como imaginávamos quando planejamos aquela viagem.

Logo encontramos vários carros parados para colocar correntes e fizemos o mesmo.

Enquanto Fernando cuidava das correntes, eu e as crianças saímos do carro.

E foi ali, na beira da estrada, que tivemos a experiência que mais esperávamos viver no Chile.

Sentimos a neve caindo sobre nós, pisamos naquele chão completamente branco, fizemos nossas primeiras bolas de neve e começamos a brincar.

Depois disso, a própria subida virou parte do passeio.

Seguíamos lentamente junto com o comboio de carros e, sempre que a fila parava, saíamos novamente. Brincávamos um pouco, olhávamos a paisagem, sentíamos a neve cair e depois voltávamos para o carro para avançar mais alguns metros.

E assim fomos subindo a Cordilheira.

Sem pressa e sem nem perceber direito quanto tempo aquilo estava levando, porque estava simplesmente uma delícia.

Quando finalmente chegamos ao Valle Nevado, já havia passado da hora do almoço.

E encontramos um cenário bem menos idílico. 

O lugar estava caótico. Faltava energia, praticamente tudo estava parado e aquela neve gostosa da subida havia se transformado em uma mistura de chuva fina e vento.

E nós estávamos morrendo de fome.

Pegamos uma pequena fila e conseguimos entrar no restaurante que fica ali na base. Depois de toda aquela subida, foi uma delícia simplesmente ficar lá dentro: quentinhos, alimentados e olhando pela janela aquele cenário de inverno.

Quando terminamos o almoço e saímos, veio outra surpresa.

O tempo havia melhorado.

Não estava mais nevando, mas também não estava mais chovendo nem ventando. E o Valle Nevado estava lindo.

Como a energia ainda não havia voltado, não estavam vendendo bilhetes para as atrações. Então fizemos algo muito mais simples: procuramos um lugar fora das pistas onde pudéssemos apenas brincar na neve.

E foi exatamente o que fizemos.

Ficamos ali por muito tempo. Escorregamos, fizemos bonecos de neve, jogamos neve uns nos outros, inventamos poses para fotos e simplesmente aproveitamos aquele cenário.

Sem teleférico, sem atividade programada e sem muita estrutura funcionando.

E ninguém parecia sentir falta.

Por volta das 16h30, começamos a pensar que talvez fosse prudente descer. Não sabíamos como encontraríamos a estrada mais tarde, não queríamos dirigir pela Cordilheira em condições ruins e ainda tínhamos toda a descida pela frente.

O problema era convencer alguém a ir embora.

Ninguém queria sair dali.

Estava gostoso demais.

Finalmente entramos no carro e começamos a descer — e descobrimos que a estrada estava supertranquila. As condições tinham melhorado tanto que nem precisamos mais das correntes.

Na volta paramos em Farellones.

Primeiro demos uma olhada rápida na região e depois entramos na própria vila para conhecer um pouco melhor. Era curioso porque, apesar de estarmos tão perto do Valle Nevado, não havia praticamente nenhuma neve acumulada ali.

Fiquei olhando aquelas casinhas, as montanhas ao fundo e imaginando:

como será que esse lugar fica todo coberto de neve?

E, como se o dia ainda precisasse entregar mais alguma coisa, tivemos de presente um pôr do sol magnífico sobre a Cordilheira.

Foi quando bateu aquela pontinha de vontade de ter ficado mais tempo lá em cima.

A estrada estava ótima. O tempo havia melhorado. Talvez pudéssemos ter ficado mais.

Mas… como íamos saber?

Naquele momento, lá no alto da montanha, não tínhamos como prever como estaria a estrada algumas horas depois. Fizemos o que parecia mais seguro e descemos.

E talvez tenha sido justamente essa imprevisibilidade que tornou aquele dia tão especial.

Saímos de Santiago debaixo de uma chuva fina, vimos a chuva se transformar em neve diante dos nossos olhos, colocamos correntes na estrada, brincamos na neve enquanto o trânsito parava, encontramos o Valle Nevado sem energia, esperamos o tempo melhorar, fizemos bonecos de neve e terminamos o dia vendo o sol se pôr em Farellones.

Não foi exatamente o dia que havíamos planejado.

Foi melhor.

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